Contos
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autorais
Expurgo
Eu tirei a mão do peito com tudo o que ela tocava. E mesmo que ali se mantivesse, não era suficiente. Empurrava e era empurrado. Sendo levado para trás. Aquela fronteira crescia para frente e de baixo para cima. Então tudo subiu. Pela sola dos pés, pelos calcanhares, até que alcançou a minha cintura, fazendo com que meu próprio peso fosse irrelevante. Não sabia se eu que afundava ou se o terreno que me consumia, quase que boiando, como quando uma criança finalmente aprende a ficar sobre suas pernas. Algumas palavras saíram de meus pensamentos: quero ver. Enfiei o rosto naquele espaço e puxei o que pude comigo. Trouxe para cima. Puxei, estiquei e abri. Eu era cavalo. Destemido. Grande. Usei tudo isso a meu favor. Ocupei o espaço que já era meu. Que já era meu. Asas cresceram sobre mim, brotaram em minhas costas, sem qualquer dificuldade, mas logo aconteceu. O tempo veio e elas morreram. Virei foi um burro de carga, carregando o senhor do passado. Ele tirou as luvas olhando para o destino, uma por uma. Isso sim é presenciar o controle, quando o outro tem o poder do deboche sobre você. E tudo que se podia fazer era gritar calado, pulando mais forte que um boi de tourada. Lógico que ele nem se mexeu. Mas assim que desisti de tanta agitação, ele botou a mão esquerda sobre minha testa, trazendo a direita em seguida. Senti como se fossemos um só. Eu e e ele, nós dois. Enfim só eu. Enxerguei o futuro através de uma luneta. Pude ver tão longe que o gosto era salgado, como lágrima, como mar. Chorei tudo aquilo. Gritei terra a vista. E a montanha chegou até mim, trazendo o vômito, a euforia e principalmente a esperança de morrer sozinho.
3 de janeiro de 2021
eu mesmo
Vinte e cinco da noite. Eram vinte e cinco da noite quando eu acordei de um sonho e percebi que o relógio batia uma da manhã. Não conseguia me mexer direito, com a boca seca e ouvindo um barulho que vinha da cozinha. Eu acordei em uma cama de solteiro que estava encostada na parede da janela. E era estranho porque por anos eu não dormia em uma dessas, normal, como a de qualquer outro. Eu estava deitado de barriga para cima e o barulho me lembrava alguem desenhando. Parecia até que estivesse cortando folhas de papel com uma régua. Não era um barulho alto, mas era bem definido. E conforme chegava até mim, eu me esforçava para olhar a porta que dava em direção a cozinha. Eu estava assustado, naquele momento eu estava tentando entender o acontecimento. Sentia dificuldade para me erguer da cama, para levantar o braço, ou até para falar alguma coisa. Quando finalmente encontrei meios para observar a porta, me dei conta de um reflexo no chão. A forma, o tamanho. Tudo indicava ser uma pessoa. Seus movimentos confirmavam perfeitamente a trilha sonora e, por mais estranho que possa parecer, sua fisionomia indicava ser idêntica a minha. O reflexo não era por conta de alguma luz acesa. Era como a luz do luar que refletia no chão. Então eu comecei a tentar chamar a minha mãe, mas a voz não saía. Estava entalada. Da mesma forma que eu não tinha poder para perguntar quem estava lá. Era mais fácil só tentar acordar minha mãe, ali do lado. Algo assim. Após alguns segundos de puro esforço para gritar e para levantar, a pessoa saiu. Ela, quer dizer, eu, eu entrei no meu quarto trazendo um copo d'água. A minha própria imagem me ofereceu algo para tomar. Só que ao beber, estava vazio. Levantei o copo, olhei, estava cheio. Decidi vira-lo sobre mim e ainda assim quase não me molhei comparado com a quantidade no copo. Foi então que arremessei ele com toda minha força querendo quebra-lo. Já o som não explodiu como eu esperava. Era abafado, parecido mesmo com um travesseiro. Eu não tenho certeza se essa pessoa que era eu mesmo foi e voltou da cozinha duas vezes, mas aquele momento marcou profundo terror sobre mim. Como se eu estivesse amordaçado por inteiro. E quando finalmente tomei as rédeas do meu próprio movimento, voltei para a realidade e acordei mais uma vez. Durante todo o sonho eu não tentava acordar. Eu apenas tentava me levantar. Ao conseguir fazer isso, acordei.
02 de janeiro de 2020
Libra
A menina disse "quero ver a lua!".
Perguntar-me-ão vocês, "mas porque a lua e não o sol?".
Ela responderá "porque a lua muda de forma".
Vocês não acham isso bem mais interessante?
Do alto de sua sacada, como que na beira de um precipício onde a queda é longa e o céu lampeja estrelado, ela tira a regata, sem sutiã. Os seios balançam no ar, aquele som residual do ambiente. Décimo andar para ser exato. Suas roupas jogadas no chão e as mãos apoiadas no parapeito. Já os vizinhos, eles assistem, mais interessados do que a programação televisiva jamais esperaria conseguir. Estão ali, tentando viver. Talvez a palavra seja, sobreviver. A realidade os agarra e tem cheiro de acaso, praticamente irresistível. Sangue para os tubarões. O mundo girando assim, fora de balanço. Ela olha, só olha. A luz que vem detrás contorna seu corpo. Está nua? pensam os vizinhos, mas a calcinha, em tom de pele, esconde-se rente à superfície. Passado alguns minutos ela se vira em direção oposta. Ao sair, gritam: "não se vá!". Ela retorna e para por um segundo, feito uma eternidade. Põe as mãos na cintura e abaixa lentamente o resto de tecido em sua virilha. O elástico escapando, de pulos em pulos, pela aspereza de seu corpo. No fim, o desvio de caminho ao redor dos calcanhares e os dedos segurando o que faltava. Solta-no, dá meia volta por fora e sai. “Não se vá, fique um pouco mais!", gritam novamente. Ao voltar, ela espera com liberdade.
Um andar acima, do outro lado da avenida, a janela exclama: "queremos ver seu corpo jovem!". Logo em seguida, três andares abaixo, outra complementa: "isso, queremos sentir". "O quê?", ela respondeu. "O seu corpo", dizem outras janelas mais, somando cinco ou sete no total. "E o que ele tem de tão interessante para vocês?", ela perguntou ao sentar em uma cadeira, cruzando suas pernas. "A mulher, o sexo e a memória", soaram em uníssono. "Minhas lembranças são tão interessantes para vocês? Mal conhecemos um ao outro". "Nós dissemos memória, algo que não sabemos definir, que se faz em corpo, que nos queima a boca; suas vivências pouco nos importa". Ela ficou quieta. Seus olhos saltaram de janela em janela analisando a situação. Algumas mais acenderam como se as estrelas continuassem ou se repetissem nos horizontes verticais. Empurra o corpo para o lado, lentamente descola sua coxa esquerda da outra – as luzes piscaram – abre as pernas e apoia a seguinte, pelo pé, sobre a cadeira. É radicalmente visível. E atravessando a barreira do som, disseram: "toque para nós!".
Ela lambe a ponta cega de seus indicadores, leva para a superfície e, circulando com firmeza, penetra em seu interior. Os astros se alinharam. A tensão aumenta ainda mais fundo. Ao final do precipício, pouquíssimo distante da avenida principal, a maré foi subindo na direção da reta até bater na lateral do edifício. Conforme a água escorre, as ondas crescem e se dissipam pouco depois da lua nova. As coxas tremeram e, com um gemido de ar, o mar sossegou sobre a terra, cobrindo-a de azul esverdeado.
Com a sola dos pés mais uma vez tocando o chão, levanta-se e veste sua regata. "No que você está pensando?", perguntaram. "No momento, em nada, normalmente, em tudo", ela respondeu com uma gota descendo de sua virilha, "tenho muito que escolher". A vida foi inundando, assim também como o nível do mar. Coloca a calcinha e recolhe alguns objetos espalhados pelo chão. "Preciso beber alguma coisa", ela disse. Entra no quarto, joga o montante sobre a cama e se dirige a cozinha. Enquanto isso, as janelas seguiram-na de fora, iluminando seu caminho. Pega um copo, a garrafa de gim e enche de gelo. Mede as doses, torna a garrafa e complementa com tônica. Depois mistura um pouco e desaparece. Os holofotes se desesperam com a perda imediata. A perseguição começou! De cômodo em cômodo, de cima para baixo, em cima, bem no topo, acham-na sentada no beiral da cobertura após ouvirem: "aqui, usei as escadas!".
"Até que sua presença não me desagrada", ela diz e dá um gole. Os vizinhos não interagiram. Ela olha para cima e deita no colchão de cimento maciço. Suas canelas sobram como iscas de peixe penduradas pelos joelhos. "Você está sozinha?", perguntaram. "Sim". "Porque?", novamente perguntaram, e sem uma resposta, tentam outra vez: "isso lhe incomoda?". Achando que seriam ignorados, ouviram: "sim". "Mas sua família, onde está?". "Lá embaixo". "Como assim? Onde?". "No primeiro andar". "Aquele que afundou?". "Sim", ela respondeu. "Então, eles estão submersos...", pensaram alto, tão alto como uma palavra dita ou a maré, que se apossara já pela metade da altura final dos prédios. "E o que você pretende fazer?", perguntaram. "Sobre?", ela retrucou neutra, de olhar apático, talvez, caído. "A sua família", prosseguiram. Ela dá outro gole e diz "ainda não sei", o nível do mar alcança seu apartamento, "preciso seguir em frente. Já estou subindo. Se vocês não repararam, meus pertences estão enchardos e pesados. Não tenho como carregá-los para sempre, mas a dificuldade de seguir, de seguir sozinha... ainda não sei". "Sozinha? E nós?", questionaram e de imediato foram respondidos, "bom, vocês, caso não tenham dado muita importância, deveriam prender a respiração".
Ela se ajeita no beiral do prédio, senta e dá outro gole, diferente dos outros, mais longo, daqueles que é preciso emborcar o copo para limpar até a última gota por detrás do gelo. Olha para baixo e acena com os pés. Logo, pouco a pouco suas pupilas se dilatam com a claridade levada embora pela profundidade, agora, azul marinho, e as estrelas consomem-na na vastidão astral. Vinda de longe a água salgada, antes tarde do que nunca, finalmente toca o seu corpo. Nem tão gelada nem tão fria quanto se poderia esperar. É o suficiente. Conforme sobe, ocupa espaço e permite que boie. Ela respira fundo olhando para o céu. Nem humana, nem animal, completamente ambiciosa entre Atena, Apolo e Afrodite.
15 de Outubro 2018
Pequenos Embrulhos
Outro dia de manhã dei uma volta de trem. Não estava lotado como de costume, mas, de qualquer forma, muita gente estava presente na ausência. Naquele momento, via o tempo passar sentado de frente para um grupo de amigos em pé, uma mãe segurando a filha no colo do banco e a porta ao lado. "Estação Berrine. Desembarque pelo lado esquerdo do trem". Após o aviso, grande parte das pessoas se aproximaram da saída. Alguns conversavam, outros mexiam no celular, já a maioria estava ocupada com o futuro prévio das horas e dos dias - pesadas marteladas mentais. Naquele momento, ali, olhando para a diagonal do chão, uma bolinha caiu do banco da frente. Com ajuda dos trilhos, ela quicou num pé, depois em outro, em mais um, despercebida, sem barulho, quase como um filme mudo. Assim que as portas se abriram, todos saíram de uma só vez, e a bolinha rolou. Sozinha ela foi, devagar, até o vão da porta - quem poderia dizer: seria essa sua parada? - e ficou. Três apitos soaram! A porta começou a fechar e a bolinha ali. Ficara parada, emperrada, sem atrapalhar o trem, sem ninguém perceber, tirando eu. Uma pequena fresta de luz e assovio entrava pelo vão. Quando minha estação chegou, levantei-me e passei pela bolinha: até logo. Lá e aqui ela permanecera em minhas lembranças, embrulhada em papel crepom. Alguém sentira sua falta? Bom, quem poderia? Quantos presentes deixamos passar não é mesmo...
1 de Agosto 2016
Sobre uma Cidade que Nunca Dorme
Abaixo dos meus olhos existe uma cidade que nunca dorme. Suas raízes foram construídas a espreita, sobre o precipício da pele. Postos na horizontal, seus moradores vivem aos montes e, ainda que divididos em dois grupos, suas casas não tem forma nem endereço. Quando vistas, frequentemente assemelham-se a um buraco escuro. De olhos arregalados, vagueiam pelas rupturas que dispõem do tempo. A caminhada é pesada, os narizes rangem, as mãos tremem e os pensamentos anseiam em conjunto - todos corcundas. Não posso dizer que são humanos ou algo do gênero; nem animais, criaturas mágicas, duendes. Apenas digo que são ladrões, todos eles, sem exceção. É uma condição, uma característica biológica dessa cidade: roubar pepitas de sonho. Ainda que não sejam ágeis, são aproveitadores por excelência. Pelo fato de desejarem uma única droga em comum, aprenderam a esperar, ignorar, não mais precisar. Constantemente usufruem de uma realidade própria, um tanto degenerativa, psicótica, com ar de onirismo. Durante o dia não oferecem muitas ameaças. Permanecem num estado vegetativo por conta dos afazeres de seu hospedeiro. Agora, durante a noite, os sentidos se afloram, preparados para que o arco da guarda de sono seja quebrado. Caso isso aconteça, entram em ação, tão ávidos como nunca. Empanturram-se de sonhos! As pálpebras desgrudam, o corpo infla, o peso triplica e os entorpecentes fazem efeito - hibernação. Ali eles ficam, presos num saco de atraso, puxando todo o terreno de vontade para baixo. Após a digestão voltam a si, a pele relaxa e o ciclo recomeça... pois assim, chegamos ao fim desta história sobre a cidade abaixo dos olhos que existe tanto em mim quanto em você. Antes que me perguntem, sim, estes ladrões tem um nome. São carinhosamente conhecidos como: olheiros.
21 de julho 2016
Copo Quebrado
"Porra! Vai se ferrar! Olhe para a merda que você fez. Tá vendo o estrago? Como você foi capaz de fazer algo desse tipo? Que raiva, o chão está imundo agora! Tenha mais cuidado, ou pelo menos tenha um pouco mais de atenção para o que está acontecendo. Você não vai limpar toda essa imundice? Tem certeza de que deixará suas ações apodrecerem assim? Não adianta me dizer que entende, que sente muito por não fazer algo a respeito, que as palavras não saíam. Estive aqui o tempo todo. Qual foi? Estava divertido brincar na quina da mesa, na beirada, na ponte da dúvida, na entreaberta ruptura da possibilidade? Sabe o que eu tenho para dizer: falta de confiança, falta de conversa, falta de tentativa. Isso, muito bem, continue parada segurando sua covardia. Você mete os pés pelas mãos, saí da cozinha sem falar nada e eu tenho que limpar, que resolver, que entender todos os contornos linguísticos de sua ignorância. Por favor, enxergue-se! Não sou o culpado de nada, pelo contrário, eu tentei, eu tentei, eu tentei mais do que devia. Eu peguei o detergente, o pano, o balde dágua, a pá e o lixo, mas e agora? O que eu faço com tudo isso? Foi tão fácil assim chorar pelo leite derramado e com a naturalidade de um sorriso falso no rosto dizer que se importa? Para piorar, ter a cara de pau de comentar: porque as coisas normalmente acabam assim?" Antes disso um copo com leite fora derrubado no chão, porém, antes mesmo disso, muitas outras coisas foram derrubadas na vida.
22 de Junho 2016
Conta no Banco
Acordara num assento de praça. Atordoado, tentei me localizar. Olhei para os lados, para cima, para mim e para baixo, encontrava-me entre duas grandes avenidas. As roupas estavam normais, as pessoas estavam normais, os prédios também, porém, algo estranho se passava comigo, comigo? Está faltando alguma coisa. Decidi me levantar. Mesmo sem confirmar, tinha a certeza que já passara por ali. O lugar era familiar, as ruas eram familiares, tudo era familiar e próximo. Andei pela região como a primeira antiga passada de uma novidade. Cada vez mais se repetia a grotesca sensação de atravessar um lugar com afirmação de saber onde se está sem nunca antes ter vivido em companhia. Após horas de procura, o sol cansara de aguardar minha resposta. Até logo, pois assim que escureceu, escureci! Acordara, mais uma vez, num assento de praça. Minhas roupas eram as mesmas, as pessoas eram as mesmas que nunca antes vi, mas sim, agora algo se mostrava duplamente estranho, comigo, com outro? Decidi não andar. Não estava com ânimo para buscar mais nada: e se acordasse mais uma vez no mesmo local, com as mesmas circunstâncias, num ciclo interminável de sensações desconhecidamente íntimas? Como fugir de nós mesmos? Muito ácido no sangue é prejudicial para o sentir. Saí correndo! Não parei! Fatigado, ainda corria, desviava das pessoas, dos obstáculos, das dores e outras felicidades desastrosas – tropecei e caí. Acordara mais de uma vez num assento de praça. Roupas sujas de barro e grama, pessoas tão habitualmente bizarras quanto podia acreditar, e sim, ainda continuava estranho. Não consigo focar em tudo, há um espaço vazio na minha percepção. O mundo desaparece rente aos meus olhos - sou deserto, areia em fim da tarde. Ainda sentado, com os braços apoiados no encosto do assento, minha cabeça tombou para trás: galhos de árvores balançando, tão calmos. Sem ter o que fazer, rodeei o mundo com o olhar. Passei pelas folhas, pelas nuvens, pelos edifícios, pelas avenidas, pelos carros, pelas esqui... levantei-me intrigado. As buzinas soaram: seu idiota, o farol está aberto! Do outro lado da rua, parado frente a porta de vidro do banco, empurrei-a devagar. Entrei no saguão, no saguão da calçada onde estava. A conta era fachada, e os detalhes de sua elegância só acumulavam juros. Virei-me para avenida. Não acordara mais num assento de praça. Minhas roupas continuavam sujas, as pessoas continuavam normais, os prédios estavam ali, só que agora, não tinha mais o que estranhar. Ao meu lado, poucos passos a direita, por onde a calçada se estendia nestes três dias, uma esquina se formou. Seguindo em sua direção com as mãos no bolso, não tinha mais com que me preocupar - agora sei onde estou.
10 de Junho 2016
Jantar de Sexta Treze
A casa... - quando dei por mim, já estava ali, isolado, num corredor vazio e fúnebre. Paredes estampadas com algum tipo de papel aveludado em tons de verde musgo e roxo. Pouca iluminação, candelabro empoeirado. Não sabia, ao certo, se realmente essas eram as cores do recinto, mas naquele momento, assim as eram. Pela atmosfera densa, o ar entrava pesado entre minhas narinas. Cheiro de algo incomum, sem definição. Não havia portas, não havia janelas, muito menos móveis ou objetos. A maior delicadeza de seus quatro cantos eram as orelhas de gato que escapavam das quinas envelhecidas da parede. Sentia-me num quarto de espelhos: ao mesmo tempo, eu olhando para tudo e tudo olhando para mim, como se mais ninguém e todos fizessem-me companhia - sensação familiar, não?! Pela primeira vez, movi-me. Com o peso de meu corpo, dei um passo para trás. A superfície do chão bambeou e afrouxou de forma que estivesse pisando em algo parecido com as costas de um jacaré ou de um sapo. Algo um tanto viscoso, frio, meio mole meio rígido, meio covarde. Quando dei por mim, na altura de minha canela, senti que estava para ser engolido. Virei! Nada acontera. Meus dedos estavam ali, sobre a madeira, sobre a grosseira camada de poeira. Que lugar estranho, incomum! Nada faz sentido aqui, ou melhor, minha presença não faz sentido. Ainda olhando para baixo, eu vi! Minha sombra tomara vida. Pouco a pouco ela se alongou a minha frente, sorrateira, discreta e traiçoeira - parou - e na periferia do olho, resíduos de luz. Novamente virei! Ao final do corredor um retângulo branco fosco se abrira. Andei em sua direção! Não havia receio, não havia medo, não havia compaixão, apenas frieza e despreocupação. O cenário mudará: cozinha. Límpida e impecável. Móveis em madeira clara. Pia de porcelana. Mesa no centro com duas cadeiras, provavelmente esculpidas a mão, encaixadas a sua volta. Armários nas paredes. Uma grande janela com vista para o nada, paisagem em branco. No teto, acabamento em gesso e o mesmo, incrivelmente renovado, brilhante, com armação dourada, candelabro do corredor. Numa das paredes, a moldura vazia de um quadro. Ao dar uma boa olhada pela cozinha mais uma vez percebi a falta de uma porta. Andei em direção a mesa, rodei-a passando o dedo por sua superfície. Perto da janela me alonguei para ver e confirmar o que já sabia - nada. Um arrepio escalou minha coluna. Ecoara no espaço o tilintar de talheres com um prato. Quando olhei, uma garota. Cabelos ruivos, vestido azul bebê e pele clara. Provavelmente nova, lá com seus dez anos de idade. Desloquei-me curioso para o outro lado da mesa com intenção de vê-la, pois, até então, seu rosto estara escondido entre as volumosas ondas de seu cabelo. Durante o breve percurso de no máximo seis passos, ela me olhava. Sem saber explicar o porquê e como, naquele momento eu já sabia o que estava por vir. Nossos olhos se encontraram. Com o rosto tremendamente sereno, ela sorriu e perguntou: o que tem para o jantar? Levantei-me em busca do que responder. Passei de armário em armário, olhei para ela, isto é, olhei para a cadeira - ela sumira. Sentei-me no seu lugar, peguei o garfo, apontei para a moldura na parede e disse: está servida? tem bolo de maçã com canela. Sem me responder, ficara imóvel, ali, sentada e pintada a beira do lago a óleo - ...era assombrada.
13 de Maio 2016
Dia do Beijo
As vinte horas, uma notícia ruim. Os planos foram deixados para lá, junto com a raiva, com o estresse, e a vontade de rasgar o mundo. O que fazer - grito mudo - não tenho o que fazer! Não fora nossa culpa. Nunca fui e nunca serei o dono da verdade. Sobre ele, isso é outra história. Minha opinião é essa, ponto final. Agora, neste momento, aceitar, ouvir, é uma questão de respeito. Estou aqui com você - deixemos passar, combinado? Pela manhã: você vem? Campainha toca. Alguma risadas - que roupa é essa? Oras, durmo assim mesmo, não ligo. Os vizinhos são fofoqueiros, não valem nosso esforço. Hoje vamos almoçar fora, tudo bem, tudo bem! Nada tão bem. Sei que não é para mim, mas seu sorriso, seu sorriso está triste. Ali, alguma coisa por ali. Reparou? Um sopro do coração. Vai passar, sim, chega pertinho. Vem cá! Assim - dou-lhe um abraço e fico. Passo pelo pescoço. Que foi, está arrepiada? Um pouco mais disso, que tal aqui. Desço pela clavícula e passo pelo externo. Puxo a gola de sua camiseta. Beijo-lhe-a! Pelos seus seios, minha face é abraçada. Tomo distância sem me afastar. Os olhares se cruzam. Agarro e arranco sua camiseta, seu sutiã. Sua boca, entreaberta, sem dizer nada, diz-me tudo. Liberdade - olá - como é quente. Ela caí sobre a cama. Por um lado, minha mão direita avança, por outro lado, minha mão esquerda avança, perto de sua nuca, minha mão direita, em seu cabelo, firma uma tranca. Nú, estou sobre ela. Minha presa, minha amada. Com beijos, sigo por sua virilha. Ela tenta puxar meu rosto para cima e acaricia meus cachos, está sensível hoje. Tiro sua bermuda, tiro sua calcinha, tiro seu gemido. Mais uma vez ela agarra meu cabelo, só que mais forte, mais intenso, mais brutal. Em menos de um minuto ela chegou lá e, olhando para mim, falou: espera um pouco, calma lá, preciso de ar. Gotas de suor escorrem pela silhueta de seu corpo. Chego, puxo ambas as pernas para o lado, ângulo reto, prendo seus braços - ah! O tempo acabou! Ela está molhada. Enfiei firme e com calma, fundo. Sua unhas cravam o colchão. Continuei, continuei, continuei - blaf! - em vermelho, vejo a marca de minha mão desenhada em sua bunda. Ela diz: assim eu não aguento. Olho para baixo, sua bainha, abre fecha. Estou enfeitiçado. Gostosa! Olho para cima, ela geme, e, com muita insistência, morde o travesseiro para não gritar. Num estado de euforia plena, os músculos de seu corpo, principalmente das coxas, ficam cada vez mais inquietos. A velocidade aumenta, a brutalidade aumenta, as batidas aumentam e, sobre a pele, as arranhadas formam uma pintura surrealista. Ofegante, ela me abraça, geme baixinho, estremece! Continuo lá dentro. Permanecemos desse jeito recuperando o fôlego. Em meu ouvido, ela sopra, algo incomum, algo aliviante - passara, assim, o soluço do coração?
14 de Abril 2016
Meia Tarde
O farol abrira para mim. Sobre a faixa, caminhei: branco, cinza, branco, cinza, branco, cinza, amarelinha: calçada. Ponto de ônibus, aqui vou eu. Paro na linha divisória rente ao precipício! Um pouco para lá, meu destino sobre o sol, um pouco para cá, sombras e mais sombras. Daquelas gigantescas, feitas por prédios enfileirados como dominó, um ao lado do outro, grudadinhos. Sol da meia tarde, o que posso dizer? Uma lindeza só, isso que posso dizer. Assim, não passo calor, nem passo frio. Aquela medida perfeita. Um teco dali, mais um teco daqui, balanceio tudo, mexo um pouquinho, e pronto, claras em neve. Sinto - que prazer em dizer isso - a brisa do vento sussurrar alguns segredos sobre mim. Não pergunte! Segredos são segredos! A estufa fora aberta e o bafo fora embora. O que sobrou? A felicidade, a calmaria, o frescor, o sol na transversal. É, o sol na transversal, cortando tudo, tudinho, pela frente. Em navalhas, os edifícios ora são iluminados, ora são apagados, ora ficam envergonhados e acanhados, ora, em foco, reluzentes, chamativos - para lá de pomposos. "Entendo, mas e os segredos?".
11 de Abril 2016
Náufragos
No jardim das quatro estações, acordei nú e abatido como terra. O alvorecer fora perdido pelo aguaceiro. As gotas são pesadas! Longos pinhais movimentam minha circuvinhança acinzentada. Assim, mais que divertidos, filhotes de furacão brincam entre os troncos. Suas filhas, as folhas, dançam no ar, usam-no como música. Em terra, faço-me adubo para mim mesmo. Escolho não mais me preocupar com o que não me deseja. Trato-me de permanecer nesse acordo silencioso. Deixo que a chuva fale, pouco a pouco, por trovoadas, por garoas, por mim. Outrora meu passado era presente. Hoje é mais que perfeito. Fodam-se os contratos e os falsos respiros. Alguém está chamando? Abaixo de minha coluna, na linha de meu externo, um broto bate a porta. Não se envergonhe, seja bem vindo! Fique à vontade, vamos, entre, entre, passe e passou. Na pele do peito, agora rasgada, ela floresceu como neve. Fartíssimos espinhos, cordialmente afiados e pontudos, assim que chegaram, comprimentaram-me. Obrigado pela visita! Ali ficamos, ali estamos, ali colorimos. É o máximo que podemos exigir de nós mesmos - a perfeição do reflexo de nossa imagem que bóia no olhar do outro sobre nós! Neste duplo lago de água salgada somos infimamente náufragos de si. Nosso alimento? Oras, que tipo de pergunta é essa. Ainda não reparou? Estamos sobre ele!
27 de março 2016
Passadio
Era começo da tarde. O sol estava mais lindo que o passadio. Sentei-me antes da catraca. Banco unitário, poucas pessoas no ônibus. Meu cabelo estava renovado. Acabara de ser lavado, pois com o tempo, secara. Toda e qualquer brisa o esvoassava. Felizmente, num misto de raiva, estrelaçava meus dedos para coloca-lo no lugar. Sem sucesso - de novo - sem sucesso, era livre. Com um livro no colo, a leitura me acompanhava pelo caminho. Logo, poucos segundos após me sentar, a rajada de aroma atravessara o recinto. Desta forma, também atravessara-me. Era próximo, era-me familiar. Tinha memórias, lembranças, algo comum, assim, recriava-se o agora. A outra ponta da parede estava vazia. Ninguém ousou sentar naquele lugar desde que cheguei, entretanto, o agora fez-se novo, e num fecho de fragrância lembrada, sua imagem fora realizada na passagem - a presença não era verdadeira.
26 de Março 2016
Rainha Não Rainhada
Na selva selvagem, com lagos lagoezos, árvores arvoradas e animais animalescos, existia uma rainha não rainhada. Assim como todos os reis rainhados e rainhas rainhadas, ela também portava uma coroa exuberantemente felpuda ao redor do pescoço. Em passos despreocupados, caminhava pela selva selvagem sem medo de ser atacada por qualquer animal animalesco. Todos a reverenciavam com lágrimas nos olhos e longos sorrisos estampados na cara. Suas palavras exalavam o perfume da ética e da compreensão pelo próximo. Seu comprometimento era inigualável! A palavra descanso não existia em seu vocabulário próprio. Todos os cidadãos do reino estavam à prova: independente de onde estivesse, sempre acompanhada de seus subordinados, ela permanecia constantemente imersa em discussões sobre o melhor para a ordenação do reino. Mal percebia ela que, por trás das aparências, as lágrimas e os sorrisos eram de gargalhadas, que seu perfume era de falsa modéstia, que seu comprometimento se dava apenas com aquilo que ela achava pessoalmente prazeroso, que sua coroa não passava de um colar em papel machê, e que, por fim, sua forma de rainha não passava de uma zebra aleouzada.
Dezembro de 2015